Um Defeito de Cor – Ana Maria Gonçalves (Livro em PDF)

Fascinante história de uma africana idosa, cega e à beira da morte, que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas. Ao longo da travessia, ela vai contando sua vida, marcada por mortes, estupros, violência e escravidão. Inserido em um contexto histórico importante na formação do povo brasileiro e narrado de uma maneira original e pungente, na qual os fatos históricos estão imersos no cotidiano e na vida dos personagens, Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, é um belo romance histórico, de leitura voraz, que prende a atenção do leitor da primeira à última página. Uma saga brasileira que poderia ser comparada ao clássico norte-americano sobre a escravidão, Raízes.

Nascida em Savalu em 1810, Kehinde, ainda criança, vê sua mãe ser estuprada e morta depois de um ataque de uma tribo vizinha. Com sua avó e sua irmã gêmea Taiwo, ela consegue escapar viva do massacre, fugindo para outra cidade. Lá, ela e a irmã são capturadas e embarcadas em um navio negreiro para o Brasil. A segunda tragédia da vida de Kehinde acontece nesse momento: a avó, depois de se juntar às netas, morre com a irmã Taiwo. Sozinha, ela acaba sendo comprada por um fazendeiro baiano para ser acompanhante de sua filha. Acompanhando a meninas nas lições, Kehinde também aprende a ler e escrever e vai crescendo no meio de outros escravos.

Depois de algum tempo, já com um filho, fruto de um estupro, Kehinde consegue comprar sua liberdade e abre uma padaria com Alberto, um homem branco com quem se envolve e que se torna pai de seu segundo filho. Os negócios não prosperam como o esperado e Alberto se afasta. Algum tempo depois, ela decide fabricar e vender charutos, um negócio que logo se torna rentável. Na mesma época, ela se aproxima da religião e dos costumes de sua terra e acaba se envolvendo numa rebelião, que ficaria conhecida na história como a revolta dos malês. Visada por ser uma africana livre, acaba sendo presa, e, com a ajuda de amigos, consegue fugir da cadeia e sair de Salvador.

Algum tempo depois, retorna somente para descobrir a maior tragédia de sua vida: Alberto, que se tornara um alcoólatra e viciado em jogo, vendera o filho para saldar uma dívida. A partir daí, encontrar o filho torna-se seu único objetivo, o que a leva ao Rio de Janeiro, São Paulo e, finalmente, de volta à África, onde o destino lhe reservaria novas descobertas e tragédias. O leitor além de se deliciar com uma narrativa envolvente, marcada pela fatalidade irá descobrir, com uma impressionante riqueza de detalhe, aspectos pouco conhecidos da cultura e religiosidade africana no Brasil e na África, ao acompanhar a saga de Kehinde, uma personagem forte e marcante, que ficará na história da literatura brasileira. Por meio da história de Kehinde, Ana Maria Gonçalves flerta com a fronteira entre o real e o imaginário ao buscar inspiração para sua personagem na vida de uma heroína lendária na Bahia: Luísa Mahin, cuja existência não é confirmada.

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